Há diversas e boas receitas pra fazer uma peça de teatro não oferecer correto. Uma delas, sem sombra de dúvida, é jogar vídeos e videos no palco. As imagens em geral ficam péssimas, a iluminação de cena atrapalha, os atores se superpõem à tela, e a mistura de linguagens tira o efeito que cada uma, isoladamente, poderia fornecer. Felizmente, nada deu incorreto em “Tchékhov É um Cogumelo”, espetáculo de grande apuro visual dirigido por André Guerreiro Lopes, do Estúdio Lusco-Fusco, em cartaz no Sesc Consolação até dia 8 de outubro.
No teatro inteiramente escuro, vemos projetada uma imagem indistinta, que inicialmente parece ser a nuvem de uma explosão atômica. Na realidade, estamos olhando imagens eletrônicas do cérebro do diretor, que se conectou com um pc em cena e entrou em estado de meditação. Mas vamos com calma. Há muitas camadas de significado no espetáculo, que, apesar de curto (80 min), procede sem atropelo. Tchékhov é encenado com frequência no Brasil.
- ► mai 06 (3)
- Sincero alegou: 08/10/onze ás 15:Cinquenta e seis
- 11 – Roupas de cama
- 9/17 (Divulgação/Theranos e Reprodução)
- Depois acrescente o arroz e com uma colher extenso de pau, mexa, deixando refogar por um tempo
Isso é o que se sente nesta ocasião, e se sentia provavelmente em 1972, quando José Celso Martinez Corrêa e Renato Borghi preparavam uma montagem de “As Três Irmãs”. No dia do lançamento, abriu-se um desentendimento estético entre os dois. Surge outra projeção no palco do Sesc: trata-se de um video, feito há mais de 20 anos, com a entrevista que José Celso concedeu ao diretor de “Tchékhov É um Cogumelo”.
André Guerreiro Lopes, ainda estudante na data, ouve uma delicada descrição a respeito do que ocorreu naquela noite de estreia. Rompera-se, diz José Celso, o círculo de afetos que sustentava a companhia teatral. Ele se encaminharia mais e mais pra ideia de um teatro “sagrado”, em que a cena conclamasse poderes misteriosos de transformação -aqueles que a Revolução Russa negligenciou, fracassando assim sendo.
O autoconhecimento pelas drogas, o xamanismo, a forças da meio ambiente e do sobrenatural agiriam por mecanismos a que o “teatro profano” -o defendido na outra metade da companhia- seria incapaz de ter acesso. Seria possível apostar, nesta ocasião, em uma montagem de “As Três Irmãs”, após o espetáculo que se frustrou nos anos 1970? De em tal grau que de imediato se criou Tchékhov no Brasil, não valeria a pena repetir a mesma ideia -russos ou brasileiros sofrendo no ócio às vésperas da convulsão.
No Sesc, reduziu-se a peça a muitas falas importantes, recitadas num jogral preciso pelas 3 protagonistas principais. Não é por sorte que, com quarenta e vinte anos de diferença de idade, as atrizes pareçam concretamente irmãs. É que, entre 1970 e 2017, o tempo de certa maneira não passou; no mínimo, nenhuma revolução aconteceu.
Em vez de encenar de novo uma profecia, construiu-se a memória dessa profecia -aquilo que sobra da peça pela cabeça do espectador, após um prazeroso tempo sem vê-la. O tempo não passa, diz o programa de “Tchékhov É um Cogumelo”, informando um sábio budista do século 13. O tempo não “foge”: está dentro da gente. Na peça, as irmãs imaginam que, depois de uma vida obscura, serão esquecidas eternamente. Todavia, renascem em cada montagem que se faz do texto.
Essa perpetuação depende, se quisermos falar como budistas, de uma “anulação do eu”: diretor e atrizes se deixam levar pelo transe do tempo cênico. Em que medida, contudo, esse perfeito poderá se conciliar com o imperativo, tão insuficiente budista e tão revolucionário, do desejo? Querer ou não desejar, eis a questão.